segunda-feira, 4 de novembro de 2019

TEMPOS MARCANTES QUE VIVI DURANTE APROXIMADAMENTE 13 ANOS COMO PADRE EM NISIA FLORESTA. LUTAS E VITÓRIAS. SOFRIMENTOS E CONQUISTAS. PARABÉNS AO SINTE PELOS 26 ANOS DE PERSEVERANÇA.

Texto do historiador professor Luiz Carlos Freire.

POR QUEM OS SINOS DOBRARAM EM 1993

Era o ano de 1993. Meio dia. Hora de se “ver as almas de Goianinha”, no dizer dos nisiaflorestenses. Instante em que o silêncio vem descansar na Vila Imperial de Papari desde os tempos de engenhos, carros-de-boi e escravidão. A maioria do povo almoçava. Alguns ainda desfrutariam a famosa sesta nordestina. Silêncio sepulcral. De repente, do alto do campanário da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, os sinos dobraram em repique, sob as mãos do senhor Bambão, velho sineiro.
Esquisito!!!
O povo estranhou a singularidade do toque e o horário incomum. Ali o sino tem simbologias diversas O repique soava como convite festivo, ao estilo das trombetas reais. Diferente dos sinos de enterro ou procissão. Tão diferente quanto o que viria em seguida. Alguns moradores ouviram rumores de que o padre daria uma palavra naquele momento, portanto estavam atentos. Logo o repique é cessado. Surge uma música nas cornetas encravadas na parede da matriz.
De repente novo silêncio... Segundos depois ouve-se a voz do padre João Batista Chaves da Rocha. Nem parecia ser o jovem sacerdote, chegado ali há pouco. Estava diferente. Ele avisa aos vereadores e ao prefeito George Ney Ferreira que se solidarizava com os professores da rede municipal de ensino, os quais realizavam a primeira greve da história da educação naquele município. O sacerdote esclareceu que, em nome dos princípios cristãos, se colocava ao lado dos educadores, pois a greve era legítima. Os professores postulavam direitos. Não era privilégio. E ressaltou que a atitude do Poder Público era abusiva.
Os nativos ficaram perplexos.
A poucos metros dali, no restaurante “Camarão do Olavo”, o prefeito George Ney Ferreira ouvia atentamente, acompanhado de alguns assessores. O mesmo ocorria à Câmara Municipal, cujo seu presidente Adjalman Andrade e vários vereadores e funcionários esticavam as “ouças” às cornetas da Igreja Matriz. A atitude do padre, que não seria tão estranhável aos olhos de hoje, naquela época foi considerada afrontosa para boa parte dos que estavam no poder, e até mesmo por algumas famílias tradicionais, desconhecedoras ou que ignoravam as transformações que o Brasil experimentava.
Adiante desse momento pioneiro estava o jovem professor João Cordeiro, o qual ensaiava os primeiros passos para o surgimento do SINTE-NÍSIA. A instituição consistia numa semente lançada ao solo nisiaflorestense naqueles meses. A situação dos professores era caótica, os salários eram simbólicos. Não havia direito algum.
A greve, sugerida pelo professor João Cordeiro, foi acatada por significativa parte do corpo docente, então efetivado pelo tempo de serviço, pois muitos atuavam como cargo comissionado e temiam ser demitidos. Alguns eram funcionários do estado e não se envolveram. Um grande apoiador da greve, desde seus bastidores, foi o Ir. Nilton Dourado, diretor da Casa Marista local, que funcionava onde hoje está o Museu Nísia Floresta. Sua participação intensa foi fundamental para se dar um novo caminho a Educação nisiaflorestense.
Naquele tempo os Maristas tinham uma casa de formação em Nísia Floresta, cujos postulantes se tornavam professores na Escola Municipal Yayá Paiva, onde os grevistas lecionavam. A presença deles foi fundamental na contribuição de mudanças de mentalidade. Eles vinham de diferentes estados do Brasil, com graus de estudos mais elevados e se somaram aos professores nisiaflorestenses no aspecto de novos entendimentos sobre direitos e leis.
Naquele tempo as escolas brasileiras funcionavam em estado ainda mais precário, pois não havia o FUNDEF (1996/1998), iniciativa federal que se tornaria o atual FUNDEB (2007). Os recursos não eram direcionados diretamente para as escolas, para que o diretor os gerisse. Tudo se dava por intermédio da prefeitura, inclusive os salários dos professores. O fato de naquele tempo os diretores escolares não serem eleitos pela comunidade escolar, aumentava o poder do prefeito e dos vereadores sobre as escolas. Desse modo uma greve denotava uma espécie de loucura e profundo desrespeito às autoridades locais.
Importante lembrar que a Organização das Nações Unidas o denominou 1993 como “Ano Internacional dos Povos Indígenas no Mundo”. Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Agripino Maia era o governador do Estado. Itamar Franco era o presidente da república, tendo assumido após o impeachment de Collor. Ele encerraria o seu mandato em 1995, quando assumiria Fernando Henrique numa gestão que se encerraria em 2002, quando Lula assumiria. Ainda em 1993, realizou-se um plebiscito sobre a forma de sistema de governo em que funcionaria o Estado Brasileiro. Optaram pela República Presidencialista. Houve a Chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, com 7 pessoas mortas, a Chacina de Vigário Geral, também no Rio de Janeiro, deixando 21 pessoas mortas. Seiscentos garimpeiros brasileiros mataram 30 índios ianomâmis, incluindo dez crianças, e a moeda brasileira passou a Cruzeiro Real. Foi ano incomum, inclusive a Nísia Floresta.
Retomando o assunto da solidariedade do padre João Batista, após o discurso improvisado, o silêncio retomou assento. Os nativos se encarregaram de disseminar o episódio por todo o município. Não se falava outro assunto por onde se andasse. Reforçava-se ali, por parte dos fiéis, o entendimento de que os servos de Deus devem se unir aos que são massacrados, e não aos que massacram. E que somente unidos são fortes, e que essa força deve ser promotora de protestos iguais aquela greve. O povo gostou. Nessa época João Paulo II era o Papa, e o Sumo Pontífice se encarregava de dar à Igreja um olhar mais popular, portanto a atitude do padre de Papari encontrou solo fértil.
Ainda em 1993 alunos da Escola Municipal Yayá Paiva ensaiavam a peça Teatral “História de Nísia Floresta”, e se enfronhavam nas ideias de luta por liberdade e justiça, instigados pelos estudos que faziam de textos da intelectual Dionísia Gonçalves Pinto. Tudo convergia para uma semente de mudança.
Em alvoroço, a Câmara de vereadores se reuniu imediatamente para discutir o assunto concebido por eles como ingerência política do padre. O presidente da Casa Legislativa dirigiu uma carta ao arcebispo Dom Alair, a qual foi lida pelo Conselho Presbiterial. O padre João Batista foi chamado e expôs os fatos, recebendo apoio do representante máximo da Igreja no estado.
Enfim, esse episódio presenciado por mim, inaugurou uma invisível pedra fundamental da nova educação municipal. Nos anos seguintes foram acontecendo transformações sutis, culminando com o que se chegou no presente. Houve um concurso público para professores, cujos detalhes todos sabem e evidenciam o nível do executivo e legislativo daquele tempo. Quase todas as conquistas se deram mediante greves e protestos, reforçando a ideia de que os sinos, sejam da igreja, sejam dos professores e de onde quer que repiquem, devem dobrar sempre.
Por tudo o que acompanho e sou testemunha, o Sinte de Nísia Floresta é uma instituição forte e respeitável. Um dos mais organizados e bem geridos do RN. É um pilar de dignidade e honra do município de Nísia Floresta.  Sintetiza um instrumento de luta por escolas melhores, por dignidade à educação das crianças e dos jovens, por professores qualificados e com salários dignos. O Sinte-Nísia é ambiente de Educação, e apesar de a luta continuar, tal instituição não lembra em nada o medievalismo do episódio narrado acima. Creio que essa instituição se tornou forte pois foi marchetada sobre o suor e a luta de vários educadores. Não há como ser diferente.
Hoje, quando os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó dobram, mesmo rachado e tendo passado 27 anos, lembram o repique de 1993... lembram a greve dos professores nisiaflorestenses, marco de dignidade e justiça. Marco de que não se devem calar diante de qualquer injustiça. Creio que o Sinte-Nísia deveria ter em sua entrada um sino como símbolo de resistência e conquista. E que os sinos dobrem sempre quando a palavra for Educação...






quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Aniversário Sinte Nísia Floresta.

Nesta segunda-feira (28/10) o Núcleo do SINTE/RN em Nísia Floresta celebrou os seus 26 anos de história com um café da manhã especial. O evento reuniu dirigentes do Núcleo, da direção estadual, assessores e autoridades.

Na ocasião, foi exaltada a importância da entidade enquanto participante da luta dos trabalhadores em educação em prol de respeito, dignidade, valorização e melhorias para a educação. | Fotos: Lenilton Lima | #SINTERN



































segunda-feira, 21 de outubro de 2019

26 anos de história e luta do Sinte Nísia Floresta.

Em 20 de outubro de 1993 os Trabalhadores em Educação de Nísia Floresta cansados das perseguições, salário abaixo do mínimo, sem carreira profissional, sem concurso público e com a gestão municipal sem atender a categoria e suas reivindicações. Com isto, resolveram se reunir em assembléia na residência Marista no centro da cidade ao lado da Matriz de Nossa do Ó com a presença de vários professores e funcionários da rede Municipal e também com os representantes do SINTERN na pessoa da professora Maria de Fátima Bezerra Coordenadora Geral do SINTE na época e mais alguns diretores da entidade sindical e da residência Marista como o Irmão José Nilton Dourado da Silva e alguns postulantes. Na ocasião foi fundado o Núcleo de Nísia Floresta com objetivo de unir os Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação em defesa dos seus direitos e lutar por suas reivindicações em meio a primeira greve organizada pela categoria no município. Foram tempos difíceis de muita opressão e demissões em massa principalmente daqueles professores que estavam de frente ao movimento. A justiça fez cumprir a lei e o gestor foi obrigado readimitir todos novamente. O tempo passou e hoje essa entidade está fazendo 26 anos de história e luta na cidade de Nísia Floresta, sendo um dos Núcleos mais antigo do SINTERN que hoje está com 30 anos de história. Muita coisa não mudou as pautas de reivindicações continuam quase as mesmas lutamos por valorização profissional e por Gestão democrática para que assim nossos direitos sejam realmente colocado em prática como determina a Lei do Piso Nacional salarial e a Lei Municipal do Plano de Carreira do Magistério. Diante esse momento de retirada de diretos de não cumprimento das Leis convocamos a todos e todas sócios e amigos convidados para festejar o aniversário do Núcleo, o dia do/a Professor/a e o Dia do/a Servidor/a com um café da manhã que será realizado próximo dia 28 de outubro às 8:30h na nova sede do Sinte Nísia Floresta.
Contamos com sua presença para festejar e fortalecer a resistência da luta.
Teremos música ao vivo durante o evento.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DIA DO PROFESSOR – DIA DE PENSAR

É bom saber que existe o dia do Professor. Creio consistir num dos dias mais importantes do mundo. Não o digo por conveniências que forem, mas porque, depois da família, são as primeiras pessoas que somos entregues ainda sujos de mingau. Ninguém nos entrega aos médicos. Ninguém nos entrega aos advogados. Ninguém nos entrega aos militares. Ninguém nos entrega aos pedreiros... São profissionais preciosos, mas quem nos recebe de fraldas são os Professores.

É ótimo ser entregue a um Professor, mas é fantástico ser entregue a um Educador. Eles recebem a nossa infância, portanto precisam ser Educadores. Só eles sabem cuidar da infância escolar. Mais ninguém. Alunos passam mais tempo com Professores que com os pais ou as pessoas responsáveis a educá-los em casa. Por tal motivo eles assumem uma postura paterna ou materna que precisa ser dosada para que a construção do conhecimento e outras aprendizagens como regras, valores, civismo, ética, cidadania ocorram com responsabilidade.

Há Professores que atravessam a vida mais ao lado de seus alunos que com os seus próprios filhos. Por conseqüência, há alunos que passam uma fase significativa de sua vida mais ao lado dos Professores de que dos pais.

A partir do meado dos anos 70 para cá os professores começaram a lidar com uma situação diferente. Eles, que eram psicólogos, padres, juízes também assumiram o papel de psicólogos. O Mundo começou a passar por problemas diversos. A televisão chegou a quase todas as casas. Coisas boas e ruins começaram a ser despejadas dentro de nossas casas, quiséssemos ou não. Adolescentes que brincavam de carrinho ou de boneca com 12 anos de idade, descobriram que meninos e meninas da mesma idade já estavam transando nos grandes centros do país.

Houve uma explosão de divorciados. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. Casais se uniram sem necessariamente receber as bênçãos religiosas ou irem ao cartório. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. As mulheres passaram a trabalhar fora. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. Quase todos estavam ainda meio perdidos já naquele tempo, sob os efeitos da Ditadura Militar. Havia medo de nada. Medo de se mexer. Medo de conversar na esquina. Medo de escrever. Medo de fazer teatro, enfim. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. Veio os anos 80. Da televisão colorida explodiu Xuxa. Bom ou ruim, um dos maiores fenômenos da TV brasileira, insuperável até hoje.  Toda menina queria ser “paquita”. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. As novelas começaram a transmitir de maneira mais sutil cenas que anteriormente estavam restritas a filmes adultos. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. .

Os anos 90 descortinaram a vitória de duas copas. Todo menino queria ser “Ronaldo”. Todo menino passou a ter como foco ser jogador de futebol. Ninguém dizia que queria ser Professor. Nem médico. Nem juiz. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. As novelas começaram a abordar assuntos incomuns à sua gênese, como por exemplo, drogas, prostituição na adolescência, homossexualismo, maltratos a idosos, alzheimer. Cidades interioranas, que nem sabiam o que era Rede Globo, descobriram trocas de casais, garotas de programa etc. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Apareceu os anos 2000. A TV, considerada a “Professora má” pariu o “Big brother”. Crianças e adolescentes passaram a assistir casais mantendo relação sexual num simples clicar de botão. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. As novelas intensificaram a exibição de fatos da vida real. Dizem que novela só mostra o que não presta. Ledo engano. Ela mostra a verdade nua. E não mostra tudo. Há realidades escabrosas que ainda não chegaram às tela de TV. E nem é bom que cheguem. Com certeza você conhece algumas. Sabia que ninguém é obrigado assistir novela? Existem livros. Existem brinquedos, jogos, brincadeiras, diálogos, filmes bons etc. Existem canais educativos com boa programação. Existem até canais religiosos. Não me refiro à Record. Ela surgiu com o discurso de veicular programação religiosa para desmanchar o que a Globo fazia às famílias brasileiras, mas faz igual ou pior que a Globo. Na realidade quase todos querem as novelas da Globo. Conheço padres e pastores que não marcam compromisso algum na hora da novela global. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Fora da TV, no mundo real, as crianças e jovens assistem notícias diárias sobre corrupção por parte principalmente de políticos. Mas há, também, funcionários públicos, funcionários de empresas privadas, os próprios empresários, militares de todas as instâncias e religiosos de todas as religiões. Sem contar os ladrões de galinha e assaltantes flagrados a cada segundo nos comércios e ruas locais. Creio que os trezentos e sessenta e cinco dias do anos, subtraídos sábado e domingo, todos os dias trazem notícias de pessoas roubando alguma coisa, ou algum desencadeamento disso. Crianças e adolescentes têm aulas diárias sobre roubo a ponto de se formatar na mente de muitas o absurdo entendimento de que roubar é normal. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

2020 bate às portas. Os fatos acima, como não poderiam ser diferentes, se intensificaram. A cada esquina, ao invés de se encontrar bibliotecas, escolas com todas as condições estruturais, professores dignamente pagos e submetidos constantemente à qualificação profissional, espaços esportivos e de lazer dignos, teatros e coisas do tipo, encontra-se igrejas e mais igrejas onde existiam armazéns, galpões, fábricas e garagens, cujos cultos são voltados apenas ao dinheiro, cuja pregação reza que só é feliz quem tem carro, lojas, muito dinheiro, roupas e perfumes de grife, enfim são mercenários levando cada vez mais o povo à ignorância. As igrejas, salvas raras exceções, cederam ao capitalismo e ao mundanismo que tanto condenam. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

As drogas – uso e tráfico – destroem o Brasil com nitidez incrível, já que me refiro ao nosso país. Dela vêm todas as formas de violência e a destruição de incontáveis famílias. Dela vem o ladrão, o assassino, o fazedor de justiça, o miliciano, enfim as formas mais inacreditáveis de destruição da sociedade. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

A partir dessa década tornou-se comum vermos em qualquer lugar pessoas que se identificam com o sexo oposto transitando em todos os lugares, ocupando as mais diversas profissões, inclusive de Professor. E lesas devem fazê-lo, pois são seres humanos como todos. Ninguém estranha mais até mesmo transgêneros na própria televisão, principalmente novelas globais. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. As próprias Forças Armadas possuem em seus quadros homens e mulheres que se identificam com o outro sexo, mas os militares, diferentes dos civis, forçam seus profissionais a silenciarem suas condições. Para os militares, falar sobre isso tem o mesmo peso de quando na Ditadura Militar falavam sobre os subversivos. “Isso é coisa de comunista”. É uma realidade que não foi o professor que criou, mas até nisso ele leva culpa. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. Um visual novo começou a se intensificar no Brasil. Aumentou o número de brasileiros que trocam de sexo por intervenção cirúrgica. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

O aparelho celular ampliou o campo de informação assustadoramente. Sabemos de tudo a cada segundo. É um tsunami de informações. 90% das notícias são falsas, camadas “fake news”. As redes sociais tomaram o tempo de todos. Ou nós tomamos o tempo todo delas?  Está todo mundo com o pescoço dobrado para o peito. E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Analise o bairro que você mora: quantas crianças vivem diariamente com o pai e a mãe, juntos, casados, ou como dizem popularmente “amigados”, na mesma residência?  Quantas crianças e adolescentes vivem regularmente apenas com a mãe? Quantas vivem regularmente apenas com o pai? Quantas vivem com o avô e a avó, juntos porque os pais trabalham fora do município? Quantas crianças e adolescentes passam o dia inteiro ou mesmo a semana inteira sob os “cuidados” de um irmão ou irmã mais velhos? Quantos adolescentes passam o dia sozinhos enquanto a mãe trabalha o dia inteiro e é separada do marido? Quantos adolescentes vivem apenas com a mãe porque o pai morreu assassinado devido a algum tipo de violência (normalmente decorrente de drogas)? Quantas vivem apenas com o pai porque a mãe está presa por assunto ligado às drogas? Quantas crianças e adolescentes vivem apenas com a avó e o avô porque o pai e a mãe estão presos devido a assuntos relacionados às drogas? E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Quantas crianças ou adolescentes vivem num lar cuja mãe ou o pai vão para o terceiro casamento e cada filho é de um pai ou de uma mãe diferentes? Quantas mães ou quantos pais perderam as contas de quantos relacionamentos tiveram e neles apareceram filhos que se separaram ao longo da vida, para acompanhar os genitores? Quantas crianças e adolescentes vivem com casais homossexuais, mas que os vêem apenas à noite devido ao trabalho de ambos? E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Quantas crianças e adolescentes vivem regularmente com um casal de mulheres homossexuais? Quantas crianças e adolescentes vivem regularmente com um casal de homens homossexuais? Quantas crianças e adolescentes vivem com casais homossexuais, mas que os vêem apenas à noite devido ao trabalho de ambos? Quantas crianças e adolescentes vivem com casais homossexuais que se separaram e atualmente um ou outro está com outro (a) parceiro (a)? E o professor precisou lidar com isso em sala de aula. Tais realidades precisam ser respeitadas, pois com o endosso do preconceito, amplia-se o bullying nas escolas com filhos de paise mães homo-afetivos.

Quantas crianças vêm de lares de acolhimento, sob responsabilidade de assistentes sociais e outros profissionais, pois não tem pai nem mãe, nem avós, ou sequer os avós os podem educá-los, pois ao pobres de Jó? E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Pegue todas as realidades acima expostas e verifique quantas dessas crianças e adolescentes tiveram condições psicológicas – ou até mesmo o tempo de silêncio e a paz necessária para fazer a tarefa de casa, ler um texto do livro didático ou ir à biblioteca do bairro pesquisar um assunto. Esse último recurso já está quase extinto, pois o aparelho celular já “substitui” as bibliotecas. Como essa criança vai prosperar na escola? E o professor precisou lidar com isso em sala de aula.

Essa é a realidade das escolas brasileiras, salvas as devidas exceções. Tudo converge para a escola. Escola é a extensão do bairro. Escola é o termômetro do bairro, e por conseqüência, escola reflete uma realidade gritante a cada dia que passa. Você sabia que no Brasil inteiro muitas escolas passam o ano inteiro sem professores de Matemática, Português, História etc? A culpa é do professor? Sabia que mais da metade dos alunos de escolas públicas não recebem todos os livros didáticos impressos pelo Governo federal? E a culpa do caos é do professor? Como ele irá construir o conhecimento junto a seus alunos sem o mínimo? Coloque militares nas escolas e deem as mesmas condições dadas aos professores civis e terão um caos ainda pior, pois lidarão com coerção e as escolas sofrerão a maior evasão de sua história.

E quando se sabe que a escola de hoje é quase a mesma do início do século XIX no aspecto de estrutura e modus operandi, no sentido de achar que o professor formado já é o bastante, comete-se um erro crasso. Os países que extinguiram seus presídios o fizeram porque investiram pesado nas estruturas das escolas, nas bibliotecas e espaços escolares de lazer e cultura. Esses países investiram parte digna de seu PIB na educação. Houve e há investimentos pesados na qualificação e no salário do professor. O contrário de que o país faz. E agora deram em apedrejar o professor, atribuindo-lhes culpas que não lhes pertence.

Os governos precisam reconhecer que é essa a realidade da escola brasileira. O professor precisa ensinar matemática e ao mesmo tempo ter um tempo considerável e que não estava previsto para trabalhar questões de violência constante decorrente da realidade deplorável que o aluno traz de casa. Bullying não é frescura, é coisa séria. E quem mais sofre são os negros e crianças pobres.

Todo professor precisa se formar em pedagogia além de sua formação por opção. Só ela nutre-o de uma apropriação educacional adequada para o atual contexto do Brasil. Ela é a base. Além dos professores, gestores e equipe técnica e pedagógica, as escolas precisam de psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, médicos, enfermeiros, filósofos, artistas, profissionais da área de esporte e lazer, pedagogos auxiliares para aula de reforço, enfim de muitos outros profissionais com expediente fixo. Isso custa dinheiro. Mas só assim será possível socorrer as nossas crianças e os nossos jovens. Essa nova escola nesse novo formato é o antídoto para curar os problemas da educação brasileira. Com o tempo as mudanças positivas irão ocorrendo, e aos poucos determinados profissionais passarão a não ser tão necessários para a escola, pois ela se reerguerá, atingindo a sua essência. Escola deve se confundir com o bairro onde está inserida. As famílias, sejam quais forem os seus perfis, devem estar presentes na medida do possível. Se as famílias não podem, a escola deve ir até ela. Isso custa dinheiro, mas é possível. Não existe tanto dinheiro para desvios e mordomias. Por que não existe para as escolas e qualificação docente?

Esse equívoco de se colocar militares dentro das escolas em nome de uma “educação cívico militar” é meramente uma espécie de cisma do atual presidente da república, cujo seu livro de cabeceira é assinado por um assassino e torturador. Por si tal barbaridade incentiva a violência num país tão levado a ela.

Ele nutre uma paranóia contra o professor civil, e maldosamente joga a culpa da realidade exposta acima no professor civil. E para o seu cérebro limitado, o militar vai salvar o Brasil começando pelas escolas. Isso é pura ideologia. É propaganda de governo onde menos se devia. É o que ele combate no sentido inverso, pois acha que professor ensina menino a fazer sexo e fumar maconha. Quem ensina isso é o Mundo, são as novelas, é a ausência da família que não teve como dar educação de berço, enfim são muitos fatores. Mas ele cismou que o professor civil fracassou e é persona non grata. Professor passa a vida tentando reverter essa realidade, tentando salvar os alunos para pelo menos concluir um determinado nível. Mas não pode fazer a mágica. Não é o professor que vai dar a devida fatia do PIB à educação.

O presidente da república quer investir pesado, mas nos militares, pois sua mente bitolada contra o professor civil quer provar para o Brasil que a educação na época da Ditadura Militar era melhor. Como pode ser melhor a coerção? Como pode ser melhor o medo? Como acreditar num homem que pega um bebê no colo e faz arminha? Que levanta uma criança vestida de militar e aponta um revolver de brinquedo para cima? Excentricidade? Prefiro não explicar. Jogue os militares dentro das escolas e dêem as mesmas condições e verão o caos. Escola não é lugar de militares.

Militares são profissionais tão úteis à sociedade quanto aos professores. Mas cada um no seu quadrado. Por falar em militares, se o presidente da república investisse fortemente em inteligência em todos os segmentos militares, e se investisse fortemente nas escolas e nos professores, mudaria a história do Brasil para melhor. Militares precisam mais de investimentos em Inteligência para lidar com os problemas. Não é de arma. Arma é a última opção, mas no Brasil faz o contrário. Ele é tão ideológico e equivocado que pensa que sua profissão militar é superior, e não tão importante quanto. Escolas militares são escolas militares. Escolas civis são escolas civis. Professor civil que porventura endosse essa loucura, se é que haja algum, não tem noção do que é Educação. Está na profissão errada. Se ele concorda está dando o seu lugar a outro. Está assinando a sua incompetência.

Particularmente, sem poesias, jamais entregaria o meu filho para um homem ou mulher com revolver na cintura. Quero o meu filho nas mãos de um Professor civil, um educador, mesmo que os governantes queiram destruir a Educação brasileira. Quero ver o meu filho entrando na escola cujo professor esteja segurando um giz, ou portando um livro, se possível, de Paulo Freire.

Reprodução Facebook: Luís Carlos Freire

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